Ciência | 6 de Julho de 2026
Diamante superprofundo estudado no CNPEM revela mineral que transporta água para interior da Terra
Pesquisa liderada por cientistas no Sirius identifica que diamante contém composto hidratado capaz de chegar a milhares de quilômetros de profundidade
Pesquisadores do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) e demais colaboradores nacionais descobriram evidências inéditas de como a água pode ser transportada para regiões profundas do interior da Terra. O estudo, publicado na revista do grupo Nature Scientific Reports, analisou um diamante raro proveniente de Juína (MT) e identificou um mineral complexo capaz de carregar água para o manto profundo, o que dá novas pistas sobre como o planeta armazena e circula água a centenas de quilômetros abaixo da superfície.

Pesquisadora da equipe responsável pelo estudo durante atividade
O diamante analisado pertence ao grupo dos chamados superprofundos, formados em condições extremas, a até 800 quilômetros de profundidade. Esse tipo de diamante é encontrado em poucos lugares do mundo, sendo a região de Juína (MT) a principal área de ocorrência conhecida. Sem grande valor comercial como gema, essas pedras costumam ser usadas na fabricação de instrumentos de corte, lixas e materiais cirúrgicos e de precisão. Os pesquisadores do CNPEM inicialmente obtiveram amostras da pedra por meio de doações de garimpeiros da região e, posteriormente, adquiriram novos diamantes com financiamento do Instituto Serrapilheira.
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A equipe identificou, no interior do diamante, uma inclusão de oxihidróxido de ferro, formada por uma combinação de minerais como goethita, hematita e magnetita. Essa combinação forma um material hidratado que pode funcionar como um “veículo” capaz de transportar água desde a superfície até regiões extremamente profundas do planeta.
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A descoberta chama atenção porque o interior profundo da Terra apresenta condições extremas de temperatura e pressão. Em regiões do manto, as temperaturas podem ultrapassar 2.000 °C, ambiente no qual minerais hidratados, capazes de armazenar água ou grupos hidroxila em sua estrutura cristalina, tendem a se tornar instáveis.
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“Quando falamos do interior do planeta, não pensamos em minerais hidratados em profundidades tão extremas. Por isso, qualquer mineral que consiga manter hidroxilas presas em sua estrutura cristalina nessas condições é extremamente importante para entendermos como a água pode existir e circular no manto profundo”, explica Fernanda Gervasoni, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas e colaboradora do CNPEM.
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O estudo foi conduzido com técnicas avançadas de luz síncrotron no Sirius, acelerador de partículas de quarta geração instalado no CNPEM, a partir das linhas Mogno, Ema e Carnaúba. A infraestrutura de ponta permitiu que se observasse, com altíssima resolução, a composição e a estrutura do mineral preservado no diamante.
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Segundo a pesquisadora, o mineral encontrado provavelmente é originário de zonas de subducção, regiões onde placas tectônicas mergulham no interior da Terra, e passou por transformações sob altíssimas pressões e temperaturas. Durante o processo, o material teria liberado água e oxigênio no manto profundo.
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“A água nessas profundidades não significa a existência de oceanos subterrâneos, mas sim hidroxilas incorporadas à estrutura cristalina dos minerais. Ainda assim, isso altera profundamente a dinâmica do interior do planeta, podendo influenciar processos como fusão de rochas, formação de magmas e até a ocorrência de sismos profundos”, afirma Gervasoni, explicando que o mineral costumava ser ignorado em estudos semelhantes. “Quando aparece em diamantes, muitas vezes esse mineral é tratado como contaminação superficial. Mas demonstramos que essa inclusão estava completamente isolada dentro da pedra, sem contato com fraturas ou com o ambiente externo.”
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O achado científico reforça a hipótese de que o ciclo da água na Terra é muito mais complexo do que se imaginava, envolvendo não apenas oceanos e atmosfera, mas também processos profundos no interior do planeta. Além disso, a liberação de água e oxigênio em grandes profundidades pode alterar propriedades fundamentais do manto, como sua composição química, dinâmica e comportamento físico, influenciando fenômenos geológicos de larga escala.
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“O mais interessante é que observamos a transformação desse mineral acontecendo dentro da inclusão, indicando que ele provavelmente já havia liberado água no interior da Terra. Isso ajuda a compreender melhor os processos químicos e físicos que ocorrem em regiões extremamente profundas do planeta”, completa a pesquisadora.
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O estudo teve como primeira autora a pesquisadora Carolina Camarda, que desenvolveu a pesquisa durante seu mestrado no CNPEM, e reúne cientistas do Centro, além de pesquisadores da Universidade de Brasília (DF), da Universidade Federal de Pelotas (RS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (RS). A pesquisa também contou com recursos da Fapesp, que apoia o projeto de pós-doutorado da pesquisadora Fernanda Gervasoni.

Sobre o LNLS
O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) atua na pesquisa científica e no desenvolvimento tecnológico envolvendo a luz síncrotron, com foco na operação e exploração do potencial multidisciplinar do Sirius, a mais avançada infraestrutura científica do País. Com dez estações de pesquisa já operacionais e abertas à comunidade científica e industrial, Sirius permite que milhares de pesquisadores de diversas áreas testem hipóteses sobre os mecanismos microscópicos que resultam nas propriedades dos materiais, naturais ou sintéticos, usados em diferentes campos, tais como saúde, meio ambiente, energia e agricultura. O LNLS faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
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O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) abriga um ambiente científico de fronteira, multiusuário e multidisciplinar, com ações em diferentes frentes do Sistema Nacional de CT&I. Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com interveniência do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde, o CNPEM é impulsionado por pesquisas que impactam as áreas de saúde, energia, materiais renováveis e sustentabilidade. Responsável pelo Sirius, maior equipamento científico já construído no País. O CNPEM hoje desenvolve o projeto Orion, complexo laboratorial para pesquisas avançadas em patógenos. Equipes altamente especializadas em ciência e engenharia, infraestruturas sofisticadas abertas à comunidade científica, linhas estratégicas de investigação, projetos inovadores com o setor produtivo e formação de pesquisadores e estudantes compõem os pilares da atuação deste centro único no País, capaz de atuar como ponte entre conhecimento e inovação. As atividades de pesquisa e desenvolvimento do CNPEM são realizadas por seus Laboratórios Nacionais de: Luz Síncrotron (LNLS), Biociências (LNBio), Nanotecnologia (LNNano) e Biorrenováveis (LNBR), além de sua unidade de Tecnologia (DAT) e da Ilum Escola de Ciência, curso de bacharelado em Ciência e Tecnologia.
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